COLETÂNEA (9)
ELLa não sabia se deveria calar-se ou se deveria trazer a tona todos os males ocultados durante os últimos tempos. O incômodo era muito grande. A perspectiva de ser avaliada como louca a deixava pouco a vontade. Mas até que ponto qualquer crítica poderia trazer um desconforto maior do que aquele que já sentia?
Era intolerável ouvir os gritos, palavrões, o corre-corre atropelado daqueles três meninos totalmente à vontade com seus hábitos curtidos em desmandos. Para ELLA, neste caso, o seu silêncio era o pecado da omissão, da irresponsabilidade social.
Sabia que todos têm o direito de ir e vir, mas só não entendia o fato de ser ameaçada a parar nos tribunais, porque exigia que, num condomínio, sem área de lazer, as pessoas, todas elas, adultos e crianças se portassem como seres educados e trafegassem pelos corredores e escadarias de modo minimamente civilizado.
Omissão neste caso, para ELLA, era o sinônimo da banalização dos bons modos e costumes, e a este respeito tinha sua teoria. Os noticiários eram fartos de relatos em que o desrespeito de menores tem levado inúmeras pessoas à condição de vítimas fatais. Pais indignados sofrendo dores atrozes pela perda de seus filhos porque uma criança resolveu exterminar seus coleguinhas.
Até que ponto a responsabilidade por estas atrocidades não recai sobre os partícipes de uma sociedade doente que prefere jogar para debaixo do tapete seus incômodos a fazer valer seus direitos? Até que ponto, ao decidir comprar um tapa - ouvidos ao contrário de agir, ELLA não seria o exemplo que arrastava e estimulava os desvios de comportamentos saudáveis?
ELLA, não era mulher de escamoteação. Há muito aprendera a necessidade de ser objetiva, de ter atitudes e não seria agora, após tantos anos de elaboração do seu caráter pessoal e social que iria se deixar abater.
Era preciso documentar as queixas para dar validade ao seu depoimento. Não teve dúvidas, finalmente iria usar seu novo celular que reunia em si várias funções, entre elas tirar fotos de altíssima qualidade e filmar com precisão. Era só aguardar o momento em que o vulcão entrasse em erupção.
Embora ELLA já tivesse refletido muito e chegado a conclusão que fazia o que tinha que ser feito, ainda sentia certo desconforto, uma sensação de “ vou mexer no vespeiro” ,” vou sair dolorosamente picada “ ,“ Vou expor feridas alheias” e “ serei odiada para sempre”.
Seus temores e conflitos permaneceram, mas uma força interior, paradoxalmente, a impulsionava adiante. ..
Absorta em suas reflexões, foi abruptamente desperta com gritos e tropel. Aguardou uns instantes na tentativa de dar uma chance para que desistissem. Mas em vão!
A força da convicção atropelou seus receios e uma gigantesca energia a colocou em ação. Pegou seu telefone, desceu as escadas e foi direto ao alvo. Fotografou a sala de festa despertando objetos que ali estavam alojados de forma inoportuna depreciando a estética do ambiente que era o cartão de visitas do edifício. Uma sala cuja denominação já encerrava sua funcionalidade. Salão de festas. Jamais poderia ser considerada uma sala de depósito, nem mesmo que fosse momentâneo. O que não era o caso.
Acionou o dispositivo da câmera para vídeo e começou a filmar o corre- corre insano daquelas crianças, que ao vê-la não se intimidaram, ao contrário, o faziam de forma mais ostensiva. Mas de repente parecem ter notado a câmera em suas mãos. Um deles, o líder das brincadeiras inconvenientes, desgarrou-se da turma e dizendo estar com sede dirigiu-se para o elevador.
ELLA sabia que ele iria buscar um adulto conivente com seus atos para que viesse tomar sua defesa.
Era uma ameaça. Chegara o momento de separar a intenção da atitude. ELLA ,ao contrário de abalar-se, foi tomada por um sentimento de coragem alicerçada pela verdade; dupla que é capaz de sustentar o mundo.
Continuou filmando a bola, dois meninos filhos de inquilino e um primo que se hospedava na casa do líder. Eles não se intimidaram, talvez porque já aguardavam ajuda.
Neste momento a porta do elevador abriu-se. Dele saiu uma senhora, avó do líder, já questionando: O que foi agora, é proibido as crianças brincarem na recepção?
A outra senhora, a síndica, amiga da mulher mais velha disse” o que está acontecendo aqui?” Como se não tivesse sido alertada por ELLA a respeito daqueles fatos.
A cena era, no mínimo, ridícula. Gralhas afetadas em seus egos querendo fazer valer a força da autoridade. Mas não havia autoridade que desse àquela situação a ordem necessária.
O Fato provocava o esgarçar da consciência e a lembrança que, em outros tempos, quando o respeito era vigente, crianças não desafiavam o mundo adulto, pois estavam mais preocupadas em fazer comidinha na panelinha de brinquedo, ou entretidas no jogo bola de gude.
O passado passou e com ele levou a prudência, os bons modos, o respeito mútuo, o linguajar amistoso, a obediência às regras estabelecidas, a conversa esclarecedora e a vontade agregadora.
O passado levou consigo também as brincadeiras educativas sempre orientadas ou assistidas por um responsável adulto. Levou a segurança das ruas que permitia uma saudável disputa de bola Levou a paz dos corações!
ELLA refletia, filosofava, cismava, e seu coração se confundia. Ainda ouve o tropel. Ainda ouve a bola batendo nas paredes e nos carros ,ainda ouve os gritos que não refletem uma incontida emoção de brincadeira, mas sim um uivo que pede limites , e que clama por atenção.
ELZA MARIA
ELLA ..............
ResponderExcluirescreveu o primeiro capítulo de um livro que se tornará um sonho para o ciclo de uma era sem violência. Vamos iniciar uma campanha de valorização da educação no lar, mais humana e com amor. Gostei. Aplausos de uma avó preocupada com o respeito em geral.