COLETÂNEA ( 8 )
Ela se sentia num ambiente hostil. Estranho! Não era a primeira vez que se encontrava ali e sempre se sentira bem acolhida, mas algo havia definitivamente mudado. Seria Ela? Ou seriam as pessoas a sua volta?
Do estranhamento à constatação não demorou muito. As pessoas estavam diferentes, agitadas, irritadas, até mesmo grosseiras.
Para Ela, a priori, o importante era dar um tempo para que os outros se adaptassem a sua presença e sentissem que Ela estava em missão de paz. Mas “o inferno não era os outros”. Todos exerciam seus papéis convictos de suas realidades, somente ELA se encontrava desconfortável, como se vestisse uma roupa de número bem menor. Não identificava bem os sentimentos que a perturbavam.
A cada evento se evidenciava a aspereza no trato. Mesmo mudando o cenário, acrescentando mais figurantes, o comportamento daquelas pessoas continuava deixando transparecer seu incômodo. Nas conversações sempre havia um comentário irônico que falava por si só.
Estava difícil manter-se neutra, como se nada estivesse acontecendo. Seus sentimentos começaram a criar forma e a necessidade de nomeá-los era iminente e ao nomeá-los uma força tomou conta de seu ser. Um missionário com intenção pacífica é um perigo quando decide deflagrar a bandeira da ira.
Mas...a ira? Em nome do que? Desgastar os bons sentimentos formatados a peso de ouro em troca da má elaboração interior dos outros? “O inferno não é os outros” lembram-se?
Encontrar e enfrentar os próprios demônios era o desafio da consagração! Mesmo que fosse preciso retroceder e buscar a âncora, que deveria ser um lugar já sedimentado no campo mental, Ela o faria.
Desprezo mesclado ao apego, amor confundido com o ódio, a dor da perda, todos os sentimentos estavam em erupção. Era preciso bater em retirada antes que a lava invadisse e contaminasse os imaculados, porque havia neste meio os pobres de espírito, anjos que dormiam em paz.
Desafogados do desconforto que Ela causava, os outros voltaram a normalidade, ficaram amáveis repentinamente. Era como se o alívio de sua ida os trouxessem ao domínio de suas realidades. Que cada um cuidasse de seu inferno e curasse suas feridas, era a ordem do momento.
Hoje, no silêncio de seu santuário, Ela encontrou sua âncora. As duas sussurram, dialogam, trocam idéias harmoniosamente e concluem: O Inferno , assim como o Céu, está em cada um. A maturidade dará prevalência a um em detrimento ao outro. E que opte pela estratégica retirada aquele que tiver ao menos uma âncora que saiba atracar no paraíso. ELZA MARIA
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