domingo, 28 de outubro de 2012

O pleito acabou e creio que com lisura

O pleito acabou e creio que com lisura. Mas eu preciso falar com os partidários, cabos eleitorais e formadores de opinião. Em todo jogo há aqueles que se encontram em dúvida, ou , como queiram , em cima do muro. É UM FATO! Nenhum eleitor fica em cima do muro por opção. Na verdade ele passou por algum processo que o tornou descrente, e ele quer e precisa ser resgatado. Falo dos em cima do muro com um bom grau de conhecimento, mas que momentaneamente não se sentem representados por nenhum candidato. Não adianta discursos falaciosos, nem arroubos partidários, pois é, talvez, exatamente por isto, que eles se encontram na condição apolítica -. COISA HORRÍVEL-, desconfortável! É exatamente de vocês que o eleitor indeciso espera a luz no fim do túnel. Mas o que se vê , na verdade , é campanha de desmoralização dos adversários . Charges, caricaturas, acusações e desentendimentos graves entre partidários de posições contrárias. Amizades de longa data se rompem por se manifestarem favoráveis a um candidato que não seja o mesmo . Parece até atitude infantil, mas que, absolutamente, colabora com o esclarecimento que seu eleitor indeciso necessita. E seu voto pode fazer TODA a diferença. A linha que separa os candidatos quanto suas decisões pró sociedade como um todo, e os que lutam por interesse próprio e partidário, é tênue. O que é governar democraticamente? Até que ponto as atitudes de um candidato eleito estão isentas de conchavos, e até que ponto é conveniente para o bem geral fazer alianças entendidas como espúrias? O pleito acabou. Uns festejam, outros lamentam e outros, aguardam, os indecisos, aqueles que engrossaram a estatística dos votos NULOS. A estes cabe dizer: “E agora, José? A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou, e agora, José? e agora, você? você que é sem nome, que zomba dos outros, você que faz versos, que ama protesta, e agora, José? Está sem mulher, está sem discurso, está sem carinho, já não pode beber, já não pode fumar, cuspir já não pode, a noite esfriou, o dia não veio, o bonde não veio, o riso não veio, não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou, e agora, José? E agora, José? Sua doce palavra, seu instante de febre, sua gula e jejum, sua biblioteca, sua lavra de ouro, seu terno de vidro, sua incoerência, seu ódio - e agora? Com a chave na mão quer abrir a porta, não existe porta; quer morrer no mar, mas o mar secou; quer ir para Minas, Minas não há mais. José, e agora? Se você gritasse, se você gemesse, se você tocasse a valsa vienense, se você dormisse, se você cansasse, se você morresse… Mas você não morre, você é duro, José! Sozinho no escuro qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José, pra onde?” – Carlos Drummond de Andrade